terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

DOZE QUADRAS

Tendo recebido da minha amiga, conterrânea e mana adoptiva, Isabel Maria o convite para escrever um texto baseado em doze palavras, resolvi não lhe fazer a vontade.
Resolvi procurar na minha memória quadras de um homem que ela sabe que calcorreou caminhos que também nós já pisámos. Que o nosso anterior sangue ouviu e viu.
Que nasceu do povo e cresceu no povo.
Escolhi algumas palavras dela, escolhi algumas quadras dele.
Para a Isabel, doze quadras do ANTÓNIO ALEIXO:


O Homem vive sonhando
Sonhando a vida percorre
E desse SONHO dourado
Só acorda quando morre

Vem da SERRA um infeliz
Vender sêmea por farinha
Passados dias já diz
Esta rua é toda minha

Meu AMOR vê se te ajeitas
A usar meias modernas
Dessas meias que são feitas
Da pele das próprias pernas

Tornaste-te meu AMIGO
Por teres medo de mim
Não posso contar contigo
Não quero amigos assim

Quantas sedas aí vão
Quantos brancos colarinhos
São pedacinhos de PÃO
Roubados aos pobrezinhos

Casado que arrasta a asa
À mulher deste e daquele
Merece que tenha em casa
Outro homem no lugar dele

O rato mete o focinho
Sem saber que faz asneira
Depois ou larga o toucinho
Ou fica na ratoeira

Morre o rico. Tocam sinos
Morre o pobre. Não há dobres
Que Deus é este dos finos
Que não quer saber dos pobres


Para que te não iludas
Com amigos repara nisto
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo

Ao chamar-te inteligente
Ficaste desconfiado
Por ser um nome diferente
Dos que estás habituado

És parvo mas és distinto
Só vês bem o que tens perto
Não compreendes que te minto
Quando te trato por esperto?

Quando todos se convençam
Que à força nada se faz
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e PAZ



De forma completamente aleatória, e correndo o risco de alguma incorrecção, dado estar a escrever de memória aqui fica o meu contributo para que quem eventualmente não conheça a obra de António Aleixo, fique curioso e a vá conhecer melhor.
Deixo uma última quadra para a Isabel, ela sabe porquê e vai comentá-la…

Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu
Tenho como secretário
Um professor de Liceu

Beijinhos e abraços para todos

Vítor Barros

8 comentários:

elvira carvalho disse...

E eu gosto imenso do Aleixo. Não sou Algarvia, a não ser por adopção, mas sou do povo como ele.
E tenho o livro e sei de cor muitas das suas quadras.
Um abraço

Maria disse...

Excelente forma de responder a um desafio...
Muito obrigada por nos teres trazido Aleixo...

Beijinho

Sophiamar disse...

Mano, conterrâneo, Amigo

Obrigadaaaaaaaaaaaaaa!!!!! Sabes quanto gosto deste homem, quanto gostam dele os inconformados, os desiludidos, os que não pactuam com a miséria, a fome, a tristeza em casa de uns enquanto sobra na casa de outros. Aleixo tinha as palavras na ponta da língua, aprendidas na escola da vida. Assim a vida, os homens, lhe tivessem reconhecido o seu valor e o tivessem homenageado em cada dia com o Pão que todos merecemos.
Obrigada, mano, por esta alegria.

Com amizade
mil beijinhosssssss

Sophiamar disse...

Voltarei para comentar esta última quadra porque a este professor de liceu, também eu, muito fiquei a dever.

Beijinhossssssss

Sophiamar disse...

Serra, Amor, Amigo, P�o, Paz, Deus...

Palavras muito importantes e que tamb�m fazem parte das d�zias de palavras que uso, perfilho, respeito...

Quanto � �ltima, sabes que tenho por ela uma ternura especial. Esse Dr. de Liceu foi o Dr. Joaquim Magalh�es, um Portuense, da freguesia da S� que adoptou Faro, desde muito novo, como terra da sua naturalidade tamb�m. Eu tenho uma verdadeira paix�o por ele. Aluna, colega, amiga jamais o esquecerei. Era sua aluna, quando lhe morreu a m�e, eu sei que os homens tamb�m choram, mas ver aquele homenzarr�o chorar quando contou isto aos seus alunos, comoveu-me muito e jamais o esquecerei. Nasceu a 3 de Maio e. nesse dia, presto-lhe a homenagem poss�vel mas, nos outros, nunca o esque�o e falo dele com frequ�ncia. Mantive uma rela�o muito pr�xima com o Dr. Joaquim Magalh�es, um HOMEM que falava com o cora�o e nos cativava desde a primeira hora. A sua �ltima obra, Pret�rito Imperfeito, pode ser adquirida nas livrarias.

Obrigada, V�tor, pelas quadras, pela amizade, pela forma como falas daqueles que por este mundo andaram e por t�o dignos valores pautaram a sua vida.
Beijinhosssssss

p.s. Vou ler o email. Respondo � noite ou � tarde.

As Sombras de Fim do Dia disse...

Extraordinária a tua forma de expressar, está fantástica!

Arco-íris disse...

Adorei a forma de responderes ao desafio...parabens.
Bom fim d semana...
bjs

Hapi disse...

Muito bom :)
Adoro poesia, nos meus tempinhos livres lá escrevo uns poemas e uns textos... Tambem ando a escrever um livro, é um sonho meu!

É impressionante como se esbanja cultura neste blog, muito bom mesmo!