domingo, 18 de maio de 2008

X- Não me contive e chorei...

Fiquei confuso! Estavas no parque e arrumar carros. Arranjas-te um lugar para o meu e ajudaste-me na manobra.
Fiquei confuso porque ao sair do carro com a moeda na mão não te vi e não a vieste buscar. Desapareceras!
Fiquei confuso e fui espreitar. Vi-te no outro extremo do parque longe do local onde eu ficara, afastado de propósito. E então eu percebi…
Afinal eu não te tinha visto…
Muitos anos atrás, éramos putos, reguilas, estudantes do ciclo. Três anos na mesma turma, mais dois de liceu. Juntos jogámos quilómetros de futebol, fumamos às escondidas o primeiro de milhares de cigarros e bebemos comprometidos as primeiras de muitas cervejas, piscámos o olho às primeiras raparigas.
Faltámos a dezenas de aulas, fomos para a praia, a pé e à boleia! Perdemo-nos nas salinas, nos terrenos do aeroporto, nos pinheiros.
Jogávamos às cartas por dinheiro, tocávamos às campainhas e escondíamo-nos. Éramos putos do ciclo, reguilas alegres e livres.
Já no liceu, um pouco menos putos, continuámos putos reguilas e sonhadores. Lembro-me que sonhavas com uma mota e de que falavas que gostarias de um dia ter um bar.
Passaram-se muitos anos. Nunca mais te vi. Não sei se algum dia tiveste uma mota e um bar.
Voltei ao mesmo parque uns dias depois. Não te vi, não estavas lá! Perguntei a um teu colega o que te tinha sucedido:
-Partiu…para sempre!
Percebi. Percebi e então tive vergonha. Vergonha da vergonha que tiveste, tive vergonha de não ter ido fumar um cigarro e beber uma cerveja contigo, tive vergonha de não ter ficado a saber se algum dia tiveste uma mota e um bar.
E naquele parque onde afinal não te vi, encostei-me ao carro e sem vergonha não me contive e chorei!
Descansa em paz.


Nota: Texto real... Arrumava carros em Faro, perto de um café de nome: O SEU CAFÉ. A minha “mana Isabel” deve-se ter cruzado com ele também!


Até breve
SE DEUS QUISER

22 comentários:

Sophiamar disse...

Vítor,Mano, Amigo!

Quantas vezes me cruzei com ele não tas sei dizer.Incontáveis! Deixaste-me arrepiada, sem palavras, com a história deste menino/homem a quem a vida pregou uma cilada. E já são tantos aqueles a quem o mesmo aconteceu! Como é possível que os homens andem tão distraídos que passem na vida indiferentes aos que tanto sofrem e ficam presa fácil de outros que espreitam a fraqueza humana, a debilidade psicológica, para os encaminhar para um corredor de onde só alguns, muito poucos, sairão.
As lágrimas soltam-se-me. O peito dói-me. Será quem eu estou a pensar? Alto, magro, rosto comprido?
Só pode ser. Só a ele deixei de ver faz algum tempo.
Deixo-te beijos muito comovida.
Escreves com a alma e o coração.

Bem Hajas!

DoRa disse...

Fiquei sem palavras e com um nó na garganta... talvez por ter lido já no final que era um texto real...
voltei ao inicio, voltei a ler... e um lágrima caiu...

Se calhar esse Homem decidiu esconder-se para não apagar em ti essas lembraças que ainda guardas dos bons momentos que passaram juntos :)

Bichodeconta disse...

Um nó aperta o peito e sem vergonha também as lágrimas fluiem..A vergonha que diveriamos ter de nós é de incontáveis vezes..Paasamos , sem olhar á nossa volta.. E aqueles a quem a sorte ou lá o que tenha sido não sorriu , passam-nos despercebidos até ao dia em que, clik, bate forte ..Ai choramos e sentimos vergionha de não os ter abeirado.. Vitor voce escreve maravilhosamente.. Parabéns..

Anônimo disse...

Obrigada pelo convite em vir conhecer o teu blog, valeu a pena, parei e não reflecti apenas frente a este texto mas sim desde o inicio do blog, os meus sinceros parabens pela maneira como escreves e como sentes...
Sem mais palavras pq as vezes as palavras ficam a parecer demais frente aos sentimentos.
Td de bom.

«gaivota da ria» disse...

Voltei para deixar os endereços dos meus velhos blogs:
http://gaivotadaria.oldblogs.sapo.pt/
http://gaivotadaria.blogs.sapo.pt/
parei por aí...
td de bom outra vez, sinceramente e continua sempre, nao faças como eu :)

mundo azul disse...

...deixar passar o momento certo...Depois, não há mais do que se arrepender...Um belo texto! Fez-me lembrar algumas vezes em que deixei a vida passar...
Beijos e muita luz!

Dulce disse...

Nunca deixar passar o momento, porque amanhã ... quem sabe!
Mais um retrato de vida em que te vejo reflectido.
Um abraço

Sérgio Pontes disse...

Fiquei sem palavras e a pensar nas voltas que esta vida dá...

Abraço

Ana Patudos disse...

Sabes Vitor, eu acho que todos nos já nos cruzámos com amigos ou simplesmente pessoas anónimas assim como descreves assim. Foi emocionante.
Fica bem
Ana PAula

Helena disse...

Lindo texto...
triste..
A vida assim é...

Um abraço

Sophiamar disse...

Passei para te deixar um abraço e para reler esta história de vida, comovente, que eu conheci tão bem. Em breve irás perceber melhor.

Um beijinho grande

MIMO-TE disse...

O prometido é devido e cá estou eu como te disse hoje.

Depois do q já tinha lido sobre ti, não fiquei surpresa com este texto. Apenas revela a pessoa que és, é por isto que ainda aqui estou, por sentir que não sou a única a olhar a essência das pessoas.

Bjos de mim

Agulheta disse...

Olá Vitor. Como a vida é traiçoeira,nos prega partidas e daquelas que não queremos,como esta quem diria que o amigo ali estava! Gostei de ler esta fase da vida real.
Abraço Lisa

amigona avó e a neta princesa disse...

O teu relato fê-lo "viver" aqui junto de nós...aqui não o deixaste passar! Beijos...

elvira carvalho disse...

Ninguém pode ficar indiferente perante este texto. Porque sabemos que existem amigos nossos também a viver assim, e também nós por vergonha, ou preconceito fingimos não os ver, quanto mais conhecê-los.
E há tantas vidas sofridas às vezes mesmo ao pé da porta.
Um abraço e um bom fim de semana.

Sociedade, Tecnologia e Ciência disse...

Bom...depois de ler os comentários ao seu texto, terei que o ler...mas não agora. O propósito é agradecer as suas vistas aos meu blog e dizer que é mentira, que de facto todos os conhecem porque escreve muito bem em qualquer ocasião e partilha lindamente. Vou adicionar o seu blog nos meus favoritos online :-) . Um beijo Vitor

Verônica Martinelli disse...

Texto tocando,,não preciso de muitos palavras.

Lágrimas não são uma vergonha até porque elas laavam o rosto de quem as chora, o coração.

:

Beijos

As Sombras de Fim do Dia disse...

Se me deixares chorar, eu choro, pois a dor é tanta, que é impossível não sentir deste lado monitor, mas tb todas as tuas palavras tiveram esse dom, fazer sentir.

Beijinho e Bom Feriado

lena disse...

um arrepio, uma lágrima, a emoção e a vontade de dizer algo agressivo, pela revolta de tantas situações iguais…

que vida temos nós, não conseguimos muitas vezes tocar o que já não existe, ou então porque deixamos de tocar quando passam ao nosso lado

Vitor escreves tão bem e transmites nas tuas frases tanta força que é impossível ficar indiferente ao que leio


doeu-me e comentei, a dor não é física, é dor de alma, de coração

consegui rever o que não vi

obrigada querido amigo por este momentos

abraço-te com a ternura e com carinho, na amizade que existe entre nós

beijinhos


lena

Leonor disse...

conheço bem o seu café. passei muitas ferias de verao na casa da minha avo em faro.
é uma historia formidavel. chorar nao e vergonha.
beijinhos

Miosotis disse...

... sensível, serena, a tua homenagem a um ser que cruzou tua vida e já rumou a outras paisagens universais :(

Penso que acabou o tempo em que torpemente se afirmava 'um homem não chora'! Só de mentes obscuras poderia vir tal 'sentença'!

Abraço fraterno

Licínia Quitério disse...

que o teu livro caminhe feliz.

beijinho.