terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

XVII- ELA, ELE E O GATO...(II)

Cinquenta e três anos e três semanas depois de ter casado ainda não se considerava viúva. Nesse dia acordara cedo, muito cedo. Uma pontada nas costas e aquela irritante tosse fizera-a acordar. Espreitou por uma fresta da janela, e clareando o escuro, a redonda e cheia lua desenhava-se ao longe transpondo o horizonte.
Vestiu-se calmamente. O simples vestido cinzento de andar por casa, e deixou-se ficar em pantufas. Na casa de banho pareceu-lhe que a torneira já não pingava e num canto uma ligeira mancha pareceu-lhe bolor. O raio do bolor. Difícil de limpar …Impregnava tudo, as paredes, a roupa, quase que a alma!
Na sala a lareira ainda quente aquecia o frio que se tinha agarrado às paredes durante mais de cinquenta anos. Um resto de sopa ainda morna e com bom aspecto iria resolver-lhe o problema do almoço. Nas mesmas paredes as mesmas fotografias: O marido de fato e gravata (novo, bonito como o filho, sem bolor na alma) junto dela, (um casaquinho branco com umas flores bordadas) felizes ainda. O filho (bonito como o pai) com uma gravatinha e o livrinho de orações debaixo do braço no dia da primeira comunhão! O barco lindo (até breve) com o filho pequeno e lindo também junto dele,(Para ela ele fora sempre pequeno)
o gato! ao fundo a lua redonda, como que a esconder-se no horizonte da fotografia..
Na cozinha preparou o café. Continuava a chamar-lhe café apesar de ser leite e só um bochechinho de café.. hábitos antigos!!… Regou as flores e verificou que ainda estavam viçosas e cheiravam bem.
Foi então que começou o vento. Primeiro devagar, muito devagar, depois forte, forte, frio e quente ao mesmo tempo, estranho. Foi espreitar a rua, abriu ligeiramente a porta e nem sinal de vento. Fechou-a e quando se voltou, ele estava lá a olhá-la fixamente, suavemente, os olhos muito vivos e abertos.
Chamou-o carinhosamente como sempre fazia. Saltou-lhe para o colo feliz, olhando-a nos olhos, e foi então que ela teve a certeza: Nos seus olhos viu os dois, remavam, remavam, em direcção à lua.
Foi ao quarto e mudou de roupa. Vestiu o vestido preto e soube que cinquenta e três anos e três semanas depois tinha ficado viúva.


Continua no próximo texto.

2 comentários:

elvira carvalho disse...

Continuo acompanhando, apesar de continuar com a sensação de que o li no livro.
Porém o tempo não tem dado para reler o livro e confirmar.
Um abraço e tudo de bom

Cata-Vento disse...

Não me parece que este conto conste no teu livro. Memórias que tentamos que o tempo não apague. Cinquenta e três anos de casada! Uma vida!

Beijinhos para três

Bem-hajam!